S. Gonçalo

Amarante (São Gonçalo) resulta da congregação das antigas freguesias de São Gonçalo e de São Veríssimo, correspondendo territorialmente às ainda subsistentes paróquias de São Veríssimo e de São Gonçalo.

A história de São Gonçalo confunde-se com a história da cidade, pois foi na sua circunscrição que nasceu e se desenvolveu o burgo amarantino, remetendo os vestígios mais antigos à Idade do Bronze (1º Milénio a. C.), como comprovam uma escultura e um machado de talão.

Para além destes parcos mas importantes vestígios, convém salientar que no decurso da Época Romana, passava por esta terra a via romana, que de Braga (Bracara Augusta) se dirigia ao importante Santuário Rupestre de Panoias (Vila Real) e que cruzava, na margem esquerda do Tâmega, com uma via proveniente de Tongobriga. No ponto de cruzamento destas vias, terá sido construída uma ponte atribuída ao imperador Trajano, mas sem, até ao momento, qualquer dado arqueológico que o corrobore. A primeira referência documental desta ponte remete para o séc. VI (entre os anos de 572 – 582), mais concretamente em documentos do Paroquial Suevo.

Na Idade Média, ganham importância na Europa as peregrinações ao túmulo do Apostolo S. Tiago que, também por estas terras de Santa Maria Maior de Amarante e de S. Veríssimo de Amarante, como então se designavam, se faziam sentir com a passagem constante de peregrinos. A estes, juntavam-se comerciantes, militares e outros viajantes que aproveitando a velha via romana se deslocavam entre as terras de Lamego, Vila Real, Braga, Guimarães e Porto.

Face a estas circunstâncias, começa a desenvolver-se um pequeno núcleo urbano em Amarante, fomentado por uma política de incentivo ao povoamento, implementada na segunda metade do séc. XII, por D. Vasco Fernandes de Soverosa, casado com D. Teresa Gonçalves de Sousa da importante estirpe dos Sousões.

Ainda na Idade Média, foi deveras marcante para a História desta localidade a chegada e a consequente instalação em Amarante de S. Gonçalo, um frade mendicante da Ordem dos Pregadores (ou de S. Domingos) que pelas suas ações e carisma, ganha a estima das populações locais que nele reconhecem aura de santidade. Das suas ações, merece destaque, a reconstrução da velha ponte romana, entre os anos de 1240 – 1250.

Após a sua morte, muitos foram aqueles que a partir de então, incansavelmente se deslocaram (e deslocam) ao seu túmulo em agradecimento de graças concedidas ou em clamor, pedindo a sua intercessão, existindo inclusive, desde os finais do séc. XIII, provas documentais do culto a Gonçalo de Amarante que ganha um novo dinamismo, a partir da fundação de um convento dominicano masculino, em 1540, no local da sua ermida e túmulo.

O princípio, desta importante casa dominicana, parte da iniciativa direta do casal real, D. João III e D. Catarina de Habsburgo. A partir de então, São Gonçalo, como agora se designava, tirando proveito do facto de ser um local de passagem e de peregrinação, quase obrigatório para quem do litoral Norte se dirige para o interior Transmontano ou vice-versa, continua a impor-se económica, social e politicamente, em contexto local e regional.

Esta dupla funcionalidade de Amarante (São Gonçalo), enquanto ponto de passagem e local de culto, materializa-se na configuração da malha urbana da cidade e na arquitetura dos seus edifícios.

Na história e na memória desta localidade, para sempre ficará marcada a passagem da coluna das tropas de Napoleão, comandadas pelo célebre general maneta, Loison, que aqui ficou retida durante catorze dias, impedida de passar para as terras de Trás-os-Montes, pelas hostes do então brigadeiro Francisco da Silveira que, da margem esquerda do Tâmega, as combatia e resistia. A estes combates sucumbiu grande parte da então villa d’ Amarante, consumida nas chamas dos incêndios provocados pela onda destrutiva do exército imperial.

Findas as hostilidades foi tempo da então vila se reerguer e modernizar, para isso contou com a ação do agora General Silveira que junto da corte, soube defender os interesses de Amarante.

A partir de 1835, com a reforma dos concelhos, a freguesia da villa d’Amarante torna-se na sede de um novo município, resultante da congregação dos concelhos de Amarante, Gestaço, Gouveia e Santa Cruz de Riba Tâmega.

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Ponte de São Gonçalo

Também conhecida por Ponte de Amarante. As referências a uma ponte em Amarante sobre o rio Tâmega remetem para a época Romana surgindo, pela primeira vez documentada no Paroquial Suevo (572 – 582) e novamente em 1019, 1114 e 1220. Contudo, nestes documentos nada consta do seu estado de conservação, pelo que se poderá considerar plausível, a sua reedificação ou restauro por São Gonçalo, entre os anos de 1240 e 1259. Desta ponte medieval que era fortificada e coroada de ameias, restam muito poucos elementos, nomeadamente os alicerces, alguns arranques do arco e a imagem de Nossa Senhora da Ponte, uma vez que esta ruiu, durante a cheia de 10 de Fevereiro de 1763.

A atual ponte começa a ser construída em Julho de 1782 e abre ao trânsito em 1791. A obra tem o risco do arquiteto Carlos Amarante e foi mestre-de-obras Francisco Tomas da Mota.

Convento de São Gonçalo de Amarante

Localizado junto ao rio Tâmega, o Convento de São Gonçalo de Amarante foi construído sobre uma ermida medieval dedicada a Nossa Senhora da Assunção, onde viveu e fora sepultado o beato Gonçalo de Amarante. A sua construção partiu da iniciativa régia, nomeadamente de D. João III e da rainha D. Catarina de Áustria. A sua fundação acontece em 1540 e as obras começam no ano de 1543. O seu primeiro arquiteto foi frei Julião Romero e os trabalhos foram depois continuados por Mateus Lopes e Gonçalo Lopes. A longa duração da sua construção ficou bem patente na amálgama de estilos que os seus edifícios apresentam.

Igreja de Nosso Senhor dos Aflitos (São Domingos)

Construída no topo do morro, que fica sobranceiro ao convento dominicano, a igreja habitualmente designada de S. Domingos começa a ser construída, para a Ordem Terceira de S. Domingos, em 1722 e ficou concluída em 1725. A sua sagração acontece em Agosto desse ano, tendo sido realizada uma grande procissão que trasladou para esta igreja a imagem de Nosso Senhor dos Aflitos, até aí, colocada na atual capela de Nossa Senhora das Dores, existente na igreja de S. Gonçalo que pertencia a esta irmandade.

Mosteiro de Santa Clara de Amarante

A sua fundação, ocorrida no séc. XIII, pela rainha de Castela D. Mafalda de Portugal (Rainha Santa Mafalda) destinou-se inicialmente a um recolhimento de beguinas, cuja comunidade, no séc. XIV, veio a ingressar na Ordem Terceira de S. Francisco. No séc. XV, passa a mosteiro da Ordem de Santa Clara e nessa condição permaneceu até à sua extinção em 1862, no âmbito das reformas anti-congregacionistas de 1833 e 1834. O mosteiro, depois de vendido em hasta pública, é convertido em residência familiar.

Em 1993, a Câmara Municipal de Amarante adquiriu o imóvel e nele instalou a Biblioteca Albano Sardoeira e o Arquivo Municipal.

Casa dos Macedos

Construída na Época Moderna, a Casa dos Macedos com planta em forma de “L”, resulta da junção de diversos volumes. Profundamente remodelada, no séc. XVIII, poucos elementos subsistem da sua primitiva construção, provavelmente datada do séc. XV. Merece especial atenção o brasão localizado no cunhal da fachada principal, inscrito numa cartela de gosto barroco. A casa ainda está na posse da família Macedo.

Casa dos Teixeira de Vasconcelos

Construída na Época Moderna, em estilo barroco, a casa apresenta, entre duas janelas da fachada principal, as armas dos Pinto e Magalhães, e pertenceu a Jacinto Teixeira de Magalhães, cavaleiro da Ordem de Cristo e fidalgo da Casa Real, capitão-mor do extinto Concelho de Gestaço e mestre de campo. Entre os sécs. XIX e XX, ocorreram neste solar diversas remodelações, sendo de destacar uma torre ameada com chaminé.

Igreja dos Clérigos de S. Pedro

Construída no local da ermida de S. Martinho, a primeira pedra da igreja dos Clérigos de S. Pedro foi lançada a 13 de Janeiro de 1621.

De uma só nave retangular, desprovida de capelas laterais e transepto, a igreja de S. Pedro apresenta uma arquitetura barroca, cuja fachada encimada pela sineira é um bom exemplo disso. No interior, os retábulos são de gosto rococó, merecendo destaque o teto da sacristia, datado de 1694, em talha profusamente decorada com motivos florais.

Casa da Câmara da Villa d’Amarante

A antiga Casa da Câmara da Villa d’Amarante, conhecida pela antiga cadeia comarcã, localizada sensivelmente a meio da Rua Miguel Bombarda, foi construída no séc. XVI, durante o reinado de D. Sebastião. Merece particular interesse o brasão, existente a meio das janelas do segundo e terceiro pisos, onde constam, na bordadura dos castelos, três setas em homenagem ao mártir S. Sebastião, por quem o jovem rei de Portugal tinha profunda devoção.

Igreja e Santa Casa da Misericórdia

Construída entre os finais do séc. XVI e os inícios do séc. XVII, a igreja da Misericórdia apresenta-se atualmente com uma configuração bastante alterada, resultante das sucessivas e profundas transformações que o edifício foi sofrendo ao longo dos tempos, o que lhe confere uma feição Neoclássica.

Em 1850, o antigo Hospital da Misericórdia transfere-se para um solar barroco existente ao lado da igreja, onde atualmente está instalado o Lar Conselheiro António Cândido.

Solar dos Magalhães

Construído na segunda metade do séc. XVI, o Solar localizado no Largo de Santa Luzia/Rua do Seixedo, foi uma das residências da família Magalhães. Em 1809, aquando da entrada da coluna do exército napoleónico em Amarante, foi a primeira casa nobre a ser incendiada. Por este motivo, as suas ruínas são um dos símbolos deste importante episódio da História Amarantina.

Igreja de S. Veríssimo

As referências mais antigas que se conhecem desta igreja remontam ao ano de 1174. No entanto, o templo atual será uma construção do séc. XVI, profundamente restaurado no séc. XX. Foi a igreja matriz de Amarante até à construção da igreja do Convento de S. Gonçalo.

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São Gonçalo de Amarante

Da Nobre família dos Pereira, Gonçalo nasceu no Paço de Arriconha, freguesia de Tagilde – Vizela, por volta do ano de 1187. Desde tenra idade dedica-se à causa divina e é ordenado sacerdote, tendo-lhe sido entregue a paróquia de S. Paio de Vizela.

Não satisfeito com a vida paroquial que levava e ardendo no desejo de conhecer, e de percorrer os lugares sagrados do cristianismo, decide encetar uma peregrinação a Roma para estar junto dos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, seguindo depois, para a Palestina.

Ao fim de catorze anos de peregrinação, regressa à sua paróquia de S. Paio de Vizela que durante a sua ausência fora dirigida por um sobrinho, que também era sacerdote e que o não reconhecendo o expulsa de casa. Desiludido com a vida opulenta e faustosa do seu substituto e deparando-se com o desrespeito aos ensinamentos e à humildade cristã, decide abandonar a vida paroquial e enceta por um modus vivendi mais contemplativo, eremítico e evangelizador, tomando o hábito da Ordem de São Domingos.

Com esta nova forma de vida chega ao vale do Tâmega e deparando-se com uma ermida arruinada dedicada a Nossa Senhora da Assunção, localizada num local ermo, junto ao rio e nas imediações de uma ponte arruinada, aí se instala e recupera o velho templo, para dele fazer a sua morada.

Calcorreando as povoações do vale do Tâmega e da Serra do Marão, evangeliza e abençoa uniões matrimoniais, apoia e protege os mais desfavorecidos e realiza alguns prodígios que lhe vão conferindo aura de santidade.

No decurso destas ações pastorais, depara-se com as dificuldades e com o perigo que os seus fiéis corriam ao aventurarem-se a atravessar o rio, principalmente, nas alturas em que este se apresentava mais caudaloso, e na falta de alternativas, decide empreender ele próprio, o restauro ou a reedificação da velha ponte romana.

Após a construção da ponte e do restabelecimento do tráfego, o frade dominicano continuou com a sua vida de pregador, até ao dia da sua morte, a 10 de Janeiro de 1259.

A partir de então, muitos foram aqueles que acorreram ao seu túmulo, instalado na mesma ermida onde residiu, para junto dos seus restos mortais, pedirem ou agradecerem a sua intercessão.

No dia 16 de Setembro de 1561, Gonçalo de Amarante é beatificado pelo papa Pio IV e algum tempo depois, já no reinado de Filipe I de Portugal (II de Espanha), inicia-se o seu processo de canonização que acaba por ficar sem efeito.

O papa Clemente X, em 1671, estende o ofício da sua festa litúrgica a toda a Ordem Dominicana que é celebrada no dia do seu falecimento, a 10 de Janeiro.

Daí para cá, o seu culto jamais parou de se difundir e propagar em Portugal e no antigo Além-Mar Português, destacando-se o Brasil, onde várias localidades o têm por padroeiro.

Frei António de Guadalupe – Bispo do Rio de Janeiro

Nasceu em São Gonçalo, no dia 27 de Setembro de 1672, e era filho do desembargador Jerónimo de Sá da Cunha e de D. Maria Cerqueira.

Estudou Direito Pontifício na Universidade de Coimbra e com o grau de bacharel tornou-se Juiz de Fora da Vila de Trancoso, não satisfeito com a vida que levava ingressou na Ordem de S. Francisco, vindo a professar no Convento de S. Francisco de Lisboa, no dia 29 de Março de 1702. Tendo-se destacado pelos seus princípios e valores cristãos e ascendência familiar, veio a ser nomeado bispo do Rio de Janeiro, no dia 28 de Novembro de 1722 e sagrado, pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, a 13 de Maio de 1725. Daí, partiu para a sua diocese, onde exerceu o cargo durante 15 anos, vindo depois a ser nomeado para ocupar a Cátedra de Viseu. Regressa a Portugal, a 2 de Agosto de 1740, mas sentindo-se exausto e cansado, recolhe-se na enfermaria do convento de S. Francisco, e aí falece a 30 de Agosto, com 77 anos de idade.

António Teixeira Carneiro Júnior – Pintor

Nasceu em São Gonçalo, a 16 de Setembro de 1872 e, desde muito novo, revelou aptidão para as artes plásticas, vindo a frequentar a Escola de Belas Artes do Porto, entre os anos de 1890 e de 1896, mais tarde, ingressa na Academia Julien em Paris, onde teve como mestres dois vultos da pintura mundial, J. Paul Lausens e Benjamin Constant. Foi, depois de regressar a Portugal, professor e diretor da Escola de Belas-Artes.

Deixou uma vastíssima e admirável produção artística, executada segundo as técnicas a óleo, a aguarela e a sanguínea, merecendo destaque o teto da sala de leitura do Palácio da Bolsa, as pinturas do Palácio Baraona em Évora e o tríptico em óleo sobre tela: “A Vida – Esperança, Amor, Saudade” (1988 – 1901).

António Carneiro viria falecer na cidade do Porto, no dia 3 de Março de 1930. Em 1953, a então Biblioteca-Museu Municipal de Amarante (atual Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso), dedica uma sala a este importante artista português, onde ainda hoje se podem admirar e contemplar, algumas das suas obras.

Augusto Casimiro dos Santos – Escritor

Filho do Dr. Casimiro Pinto de Magalhães e de D. Cândida Rita dos Santos Paya y Mester, Augusto Casimiro, nasceu a 11 de Maio de 1889, e foi um ilustre militar, poeta e escritor.

Na carreira das armas exerceu diversos cargos importantes, tendo participado, durante a Primeira Grande Guerra, na Campanha da Flandres (1917 – 1918), de onde regressa com o cargo de capitão, sendo depois agraciado com diversas condecorações, devido aos seus feitos heroicos. No ano de 1937, passa à reserva em consumação de alguns conflitos internos que, surgiram no exército português.

Foi após este afastamento que se dedica à escrita, quase por inteiro, publicando bastantes obras literárias e colaborando em jornais e revistas da época.

Faleceu a 23 de Setembro de 1967.

Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (Teixeira de Pascoaes) – Escritor/ Poeta

Nasceu a 2 de Novembro de 1877, na Rua Teixeira de Vasconcelos, nº 131. No entanto, viveu praticamente toda a vida na Casa de Pascoaes, em Gatão. Era filho do conselheiro João Pereira de Vasconcelos e de D. Carlota Guedes Monteiro. Pascoaes, como era conhecido, fez todo o seu percurso escolar em Amarante, tendo frequentado o liceu Nacional de Amarante, e no ano de 1906, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Terminado o curso, ainda exerceu a advocacia em Amarante e no Porto, mas ao fim de dez anos, desiste desta profissão e passa a dedicar-se, por inteiro, à poesia que já ia escrevendo desde os tempos do liceu, tendo inclusive, os seus primeiros versos sido publicados no semanário “Flôr do Tâmega”. Aos 17 anos, publica a sua primeira obra literária: “Embryões”, seguindo-se outras que o vão tornando num portentoso poeta e num extraordinário prosador, com projeção Internacional.

Toda a sua produção literária tem profundas raízes que o ligam a Amarante, a Gatão, ao Tâmega e ao Marão.

Faleceu a 14 de Dezembro de 1952, na Casa de Pascoaes, e está sepultado no jazigo da família Teixeira de Vasconcelos, existente no cemitério de Gatão.

José Custódio de Pinho – Arqueólogo e etnógrafo

Natural de São Gonçalo, José de Pinho nasceu a 19 de Maio de 1873. Frequentou a Academia Politécnica do Porto e a Escola de Belas-Artes da mesma cidade e dedicou, praticamente toda a sua vida, ao estudo da Arqueologia e da Etnografia locais, foi sócio do Instituto de Coimbra, da Sociedade de Antropologia e de Etnografia e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Dos diversos artigos que escreveu merecem destaque: “Os Castros de Amarante”, “Expansão da Cultura Megalítica no Concelho de Amarante”, “A Caça” e “A Pesca”.

Faleceu na Cidade do Porto em 1939.