Madalena

Implantada na margem esquerda do Tâmega, Madalena, com pouco mais de 2 Km2, estende-se da frente ribeirinha do Largo das Navarras até aos Ataúdes, em declive constante e relativamente acentuado.

À partida, exceto as áreas mais próximas do rio, tal configuração geográfica é pouco favorável à ocupação humana. Porém, tal não acontece e, no lugar dos Ataúdes, foi descoberta uma necrópole galaico-romana, datada dos séculos II e III d. C. Ora, a identificação de uma necrópole pressupõe a existência de um espaço habitacional nas suas proximidades. Deve ser tido ainda em conta que, nas imediações do lugar dos Ataúdes, mais concretamente no Marancinho, subsistem alguns troços de uma via romana que pela Serra do Marão seguia em direção ao Santuário Rupestre de Panoias (Vila Real).

Da Época Romana até à Baixa Idade Média encontra-se nesta freguesia da Madalena um grande hiato no que respeita a vestígios de ocupação humana, havendo novamente indícios, apenas no séc. XII, mais concretamente, após a fundação da albergaria do Covelo do Tâmega. A instituição desta casa de acolhimento de peregrinos de Santiago poderá ter sido contemporânea da construção, se é que já não existiria antes, da igreja de Santa Maria Madalena. A igreja dedicada à discípula de Cristo é referida nas inquirições de 1258, como sendo abadia sufragânea do Mosteiro Beneditino de São Salvador de Lufrei que, algum tempo depois, viria a tornar-se dependente do de Gondar. Com esta transmissão, também a abadia de Santa Maria Madalena do Covelo (como então se designava) passa para a posse das religiosas de Gondar, pois integrava o património do Mosteiro de Lufrei.

Entre os séculos XIII e XIV, é instituído o Concelho de Gestaço, que tem precisamente Madalena como sede de concelho.

O primeiro Senhor que se conhece deste concelho é o conde de Barcelos, D. Pedro Afonso, filho bastardo do rei D. Dinis. Sabe-se também que a sua doação foi efetuada a 15 de Setembro de 1306. Como o conde não teve filhos, o Senhorio do concelho de Gestaço passa para os bens da coroa em 1354 e, anos mais tarde, D. Fernando I entrega-o a D. Gonçalo Gomes da Silva, como forma de pagamento e de agradecimento pelos serviços que este rico-homem prestou à coroa e ao reino. Nesta estirpe permaneceu até 1449, ano em que é retirado a D. João da Silva (neto de D. Gonçalo Gomes da Silva) por este ter tomado o partido do infante D. Pedro, duque de Coimbra, na guerra civil contra D. Afonso V. A partir dessa da data, Gestaço passa para as mãos de D. Gil Vasques da Cunha e na posse dos seus descendentes permaneceu até ao séc. XVII.

Na Época Moderna, Madalena afirma-se cada vez mais, como a capital de um concelho marcadamente rural e serrano e recebe carta de foral do rei D. Manuel I no dia 15 de Maio de 1514. A partir dessa data, foi construída a casa da câmara com a respetiva cadeia e pelourinho, localizada junto à ponte do Arquinho.

Da segunda metade do séc. XVI, tem-se a notícia de que no lugar da Feitoria existia uma oficina de lonas e vedantes para a armada real. Desta oficina, sabe-se que o rei D. Sebastião fez a doação do assento (título de rendimento), que aí possuía, às religiosas do Mosteiro de Santa Clara de Amarante.

Também nesta freguesia se instalaram e viveram algumas famílias nobres, tais como os Queirós de Figueiredo, os Queirós Navarro, os Taveira Pinto e os Cabral Barbosa. As suas fontes de rendimento eram provenientes das terras que possuíam aqui e noutros locais e dos altos cargos públicos que desempenhavam na administração local e/ou no exército.

É de referir ainda que, nestas terras da Madalena, existe no lugar das Murtas uma nascente de águas sulfurosas e alcalinas, aconselhadas para o tratamento de reumatismo, de doenças de pele e das vias respiratórias.

Estas águas, que já seriam do conhecimento dos romanos, eram captadas por intermédio de uma canalização em cerâmica para uns pequenos tanques, onde as pessoas se podiam banhar. Este espaço para banhos vai sendo ampliado e, em 1895, é nele construído um pequeno balneário. Nestas Caldas das Murtas, como então se designavam, os utentes podiam tomar banhos de imersão, duches e ainda fazer inalações e ingestões.

Nos anos setenta, com a compra da Quinta das Murtas, pela Diocese do Porto para a construção do Colégio de São Gonçalo, e a consequente urbanização das suas imediações provocaram a demolição do balneário, mas a sua nascente foi protegida e atualmente brota num fontanário, situado na praceta das Murtas.

Em 1835, o concelho de Gestaço é extinto e as suas freguesias são integradas no de Amarante. A partir desse momento, só o rio mantem separadas as duas partes de uma mesma cidade.

Nas últimas décadas do século XX, Madalena adquire uma nova configuração, marcadamente urbana com novas infraestruturas, serviços, equipamentos e espaços que alteraram por completo o quotidiano tradicional das suas gentes.

GALERIA
Ponte do Arquinho

A reaparecida ponte do Arquinho terá sido construída no séc. XIII, como comprovam as marcas de canteiro existentes nas aduelas inferiores do vão do arco. Edificada sobre a Ribeira de Padronelo, a ponte ligava a rua do Covelo (atual 31 de Janeiro) à rua do Cabo (atual António Carneiro) e à antiga praça de Gestaço (atual rua de Olivença). Aquando da reestruturação urbana dos anos trinta, foi soterrada e adossada à conduta que canalizou a ribeira até ao rio.

Recentemente, no âmbito do programa de requalificação urbana da Praça Conselheiro António Cândido, reapareceu e foi incluída no respetivo projeto.

Em cada um dos lados desta ponte estavam colocados os pelourinhos das Câmaras de Gestaço (a Norte) e de Gouveia de Riba Tâmega (a Sul).

Edifício Rio (antigo Colégio de São Gonçalo)

Construído no largo das Navarras, em 1931, para albergar o Colégio de São Gonçalo que entretanto havia sido fundado. Este edifício segue os padrões arquitetónicos do Monumentalismo Modernista, vulgarmente designados de Arquitetura do Estado Novo. Nesta construção, de três pisos e uma planta em “L”, merece destaque o frontão, existente na fachada principal, com os cinco escudetes de Portugal.

O colégio funcionou neste edifício até ao início dos anos setenta, altura em que passa para as atuais instalações construídas no lugar das Murtas. Após a saída desta instituição, neste espaço, ainda se estabeleceu o liceu de Amarante mas é deixado ao abandono, passado algum tempo. Recentemente foi restaurado e adaptado a novas funcionalidades, tais como estabelecimentos comerciais, serviços e restauração.

Igreja de Santa Maria Madalena

De Fundação medieval, a atual igreja de Santa Maria Madalena resulta da trasladação do primitivo templo para o atual largo de Santa Maria Madalena, construído para o efeito. A igreja em Estilo-Chão apresenta uma fachada bastante despojada, encimada por um frontão coroado por cruz, ao centro, e dois pináculos nas vertentes laterais. Nesta fachada, apenas se abre um portal retangular e um óculo, ao centro.

De uma só nave o edifício apresenta uma planta retangular, com a capela-mor separada do corpo da igreja por um arco abatido. A cobertura em maceira é revestida de madeira. No interior da igreja, pode ver-se em mísula, a imagem da padroeira, Santa Maria Madalena.

Casa do Correio

Localizada na Avenida Alexandre Herculano, a Casa do Correio destaca-se pela singularidade da sua arquitetura que a inscreve na tipologia das designadas “casas de brasileiro”.

Embora a sua construção, da responsabilidade do licenciado Valentim Pinto, remeta para a segunda metade do séc. XVII, o atual edifício, resulta de uma remodelação ocorrida entre os finais do séc. XIX e os inícios do séc. XX. São de destacar no conjunto edificado, de planta retangular com dois pisos acrescidos de águas furtadas, as duas amplas varandas panorâmicas, existentes nas fachadas Norte e Sul. No portão principal e na fachada Sul, pode ver-se o brasão dos Castro, Taveira, Pinto e Esteves.

Era nesta casa que se distribuía o correio postal da freguesia da Madalena, daí a designação de Casa do Correio.

Casa da Cerca da Madalena

Construída na Época Moderna, a casa da Cerca da Madalena, é um interessante edifício de arquitetura barroca. O solar de dois pisos, acrescidos de uma cave, tem uma planta retangular e o seu acesso faz-se por um vão de escadas. A fachada é enriquecida com um painel de azulejos policromados, datados dos séculos XVII/XVIII. Esta casa é detentora de uma capela adossada à extremidade direita da fachada principal. O templo é denunciado exteriormente, pela existência de um pequeno campanário de apenas um sino.

Casa de Saúde Santa Maria Madalena

Do arquiteto e engenheiro Amândio Pinto, a atual casa de Saúde Santa Maria Madalena foi construída nos anos vinte do século XX e segue as conceções arquitetónicas da arquitetura revivalista.

De planta subrectangular com três pisos, são de destacar os vãos das janelas e das varandas pela qualidade dos seus acabamentos bem como dos diversos painéis de azulejos policromados com motivos florais.

Atualmente, o edifício pertence à Santa Casa da Misericórdia de Amarante que nele instalou os serviços de psiquiatria.

GALERIA
Santa Maria Madalena

Natural de Magdala, Maria foi uma discípula de Jesus Cristo a quem, segundo os Evangelhos, Jesus expulsou “sete demónios”. Daí por diante, passou a acompanhar sempre o Mestre, seguindo-O, escutando-O e servindo-O. Esteve presente na sua condenação e suplício, juntamente com a Virgem Maria e o Apostolo São João. Foi uma das mulheres que acorreram ao seu túmulo, no terceiro dia após a sua morte, com o intuito de finalizar o ritual de sepultura, derramando sobre o seu corpo perfumes e unguentos. Ao chegar ao sepulcro, constatando que a pedra que o havia fechado tinha sido removida, começa a chorar e é surpreendida com uma aparição de Jesus que a incumbe de levar a notícia da sua ressurreição aos restantes companheiros.

Algumas tradições cristãs ocidentais identificam Maria Madalena, como sendo a mulher pecadora que foi absolvida por Jesus dos seus pecados ou a irmã de Lázaro e de Marta, também chamada Maria.

Segundo as mesmas, Maria Madalena, fugindo das primeiras perseguições aos cristãos, chega numa barca a uma praia da Provença – França, e em grandes penitências, viveu os últimos trinta anos da sua vida, numa gruta em Aix-en-Provence, meditando e comtemplando a Paixão de Cristo.

A espiritualidade medieval vai adotar esta tradição da penitente, contemplativa e ardente de ver o seu Senhor, como o exemplo máximo a ser seguido pelas múltiplas congregações religiosas femininas que, entretanto, vão surgindo veja-se, por exemplo, a espiritualidade dos diversos movimentos de mantelatas, dos quais alguns a têm por padroeira.

A sua festa litúrgica é no dia 22 de Julho e os seus atributos são um vaso de unguentos, uma cruz e uma caveira. Santa Maria Madalena é ainda representada com longos cabelos soltos, com vestes de tonalidades arroxeadas ou completamente despida, tendo apenas os órgãos sexuais tapados com o próprio cabelo.

Albano de Carvalho Sardoeira – Professor e Historiador

Filho de Avelino de Melo Alves Sardoeira e de Januária Salema de Carvalho, Albano Sardoeira nasceu a 11 de Março de 1894, licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Universidade de Coimbra e, na cidade do Mondego, frequenta ainda o curso da Escola Normal Superior com o intuito de poder trabalhar no magistério Liceal. Foi professor no Liceu de Braga e no Latino Coelho em Lamego, onde viria a exercer os cargos de inspetor e reitor, durante alguns anos.

Foi ainda membro da Comissão de Etnografia e História do Douro Litoral e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Colaborou em vários jornais e revistas locais, tais como, a “Flor do Tâmega”, o “Boletim Douro-Litoral” e a “Labor”. Desenvolveu ainda alguns estudos de História Amarantina, destacando-se: “A antiga Ponte Fortificada de Amarante”, “Noticia de Alguns Artistas que Trabalharam em Amarante”, “O General Silveira e a Reedificação de Amarante” e “Autores Amarantinos, Subsídios para a sua Biografia”.

Albano Sardoeira foi ainda o principal mentor da criação de uma Biblioteca-museu em Amarante, da qual viria a ser o seu primeiro diretor, no ano de 1947.

Faleceu a 30 de Abril de 1964. A Biblioteca Municipal de Amarante, após a sua separação do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, passa a designar-se, em sua homenagem, Biblioteca Municipal Albano Sardoeira.

Álvaro da Mota Alves – Advogado e Vitivinicultor

Álvaro da Mota Alves nasceu na Madalena, no dia 8 de Dezembro de 1882 e era filho de Teotónio Alves Sardoeira e de Joaquina da Mota. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, no ano de 1907 e exerceu advocacia. Durante a Primeira Grande Guerra (1914 – 1918) foi nomeado para secretário do Tribunal Militar do Porto e após o armistício, com a consequente extinção do cargo, torna-se funcionário Judicial.

Dedicou-se ainda ao estudo e à divulgação pela Europa, dos vinhos portugueses e colaborou em vários jornais como, por exemplo, “A Flor do Tâmega”, o “Primeiro de Janeiro”, o “Comércio do Porto”, o “Jornal de Noticias”, o “Boletim do Instituto do Vinho do Porto”. Publicou ainda “Vinho do Porto – Coletânea de Artigos publicados em o Primeiro de Janeiro” e “Subsídios para a História do Vinho na Cidade Porto”.

Artur da Mota Alves viria a falecer na cidade do Porto, no dia 2 de Março de 1956

José Taveira de Carvalho Pinto Meneses – Engenheiro, ampelógrafo e Presidente da Câmara Municipal de Amarante

Nasceu na Madalena a 13 de Maio de 1844. Estudou na Academia Politécnica do Porto e prestou, depois de se licenciar, serviço na Direção das Obras Públicas da Guarda, tendo mais tarde, sido transferido para as mesmas funções, mas no distrito de Braga. Integrou uma das brigadas que construíram os caminhos-de-ferro da linha do Douro.

Em 1872, pediu licença ilimitada e regressou a Amarante, onde passou a dedicar-se à ampelografia quase por inteiro.

Durante a Regeneração torna-se deputado por Amarante nas cortes gerais do reino, e durante cerca de dez anos, exerce o cargo de presidente da Câmara Municipal de Amarante.

No ano de 1884, regressa à cidade do Porto e assume o cargo de diretor da Direção Geral de Agricultura, passando depois para a presidência da Liga Anti Filoxérica e para a da Brigada de Estudos da Região Duriense e Transmontana. Posteriormente viria a tornar-se no diretor dos Serviços de Ampelografia do Reino, cargo que exerce até à sua morte, ocorrida no dia 31 de Janeiro de 1908.

O Eng. José Taveira de Carvalho Pinto Meneses foi ainda um dos fundadores da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal e deixou um interessante legado no âmbito da investigação da Ampelologia Portuguesa.

Sebastião Augusto Nogueira Soares – Médico

Sebastião Augusto Nogueira Soares nasceu na Madalena, no dia 16 de Outubro de 1857 e era filho de José Luís Nogueira Pinto e de Custódia de Jesus Ribeiro Soares. Licenciou-se em Medicina pela Escola Médico-cirúrgica do Porto, no ano de 1881, com notáveis classificações e numerosos prémios. Foi médico militar e cirurgião-mor no regimento aquartelado em Amarante. Publicou ainda alguns trabalhos de medicina.