Gatão

Distando apenas 4 km da sede de concelho, Gatão, com uma área de 5, 42 Km2, implanta-se junto ao rio Tâmega em local de vale aberto e é constituída por solos férteis, bem irrigados e de boa exposição solar.

Nesta localidade, há indícios de ocupação ininterrupta desde a Idade do Ferro (de 700 a. C a 1 d. C), sendo, no entanto, mais evidentes durante a época Romana, como demonstram vários vestígios arqueológicos, tais como duas aras e algumas cerâmicas utilitárias.

Em Gatão, para além de um vicus (pequena aldeia) chamado Atucauses, terá existido ainda uma villa (grande propriedade fundiária romana), que terão permanecido habitados, mesmo depois da tomada da Hispânia pelos povos bárbaros, no ano de 409 d. C.

No período Visigótico, Maderne, Pascoaes e Tardinhade, constituem três povoações de uma antiga paróquia, pertencente à Diocese de Bracara Augusta (atual arquidiocese de Braga).

Mais tarde, já no século IX, durante a Reconquista Cristã, voltam a surgir novas referências a este território, designadamente as da fundação da igreja de S. João pelo conde D. Gatto, povoador de Astorga e descendente do rei visigodo Flávio Egica, todavia esta informação carece de documentação ou dados históricos.

No entanto, as primeiras referências documentais que confirmam a existência da paróquia de Gatão, com a respetiva igreja dedicada a S. João Baptista, datam de 1258, nas inquirições de D. Afonso III.

A agricultura, a pecuária e a exploração silvícola foram desde sempre as atividades principais das gentes de Gatão. Na Época Moderna (do séc. XVI ao séc. XVIII) surgem ou desenvolvem-se as Quintas de Pascoaes e Tardinhade, com os respetivos solares seiscentistas. A estas grandes propriedades viriam a juntar-se outras, nas centúrias seguintes, mas de menor dimensão, tais como a Quinta do Assento, a Quinta de Belos-Ares, a Quinta do Outeiro, a Quinta de Paredes e a Quinta da Boavista.

Dos vários produtos agrícolas que nestas propriedades eram cultivados, merece destaque, pela sua qualidade, o vinho da casa de Pascoaes e o da de Meios, referidos na obra Minho Pittoresco, de José-Augusto Vieira, publicada em 1886/7, embora o autor lamente que este verdadeiro “néctar dos deuses”, à data, estivesse reservado, quase por exclusivo ao consumo familiar e às adegas da região.

Também Gatão sentiu a onda de destruição e de devastação das tropas napoleónicas no fatídico ano de 1809, pois o exército imperial, para além das batidas que fez em busca de mantimentos, procurou, a 29 de Abril, atravessar para a margem esquerda do Tâmega pelo vau de Gatão, próximo da capela de Nossa Senhora do Vau. Nestas batidas, tal como outras casas e celeiros de Gatão, também a Casa de Pascoaes foi incendiada.

Administrativamente Gatão integrou o Concelho de Celorico de Basto, desde a Idade Média, e aí permanece até ao dia 6 de Novembro de 1836, onde por decreto, passa para o de Amarante. Por um breve período de tempo, entre os anos de 1896 e 1902, Gatão vê o seu espaço dilatado com a anexação da freguesia de Vila Garcia.

Em 1921, é inaugurada a estação de Caminhos-de-Ferro de Gatão, e passa, a partir desse ano, a ficar mais próxima de Amarante e da cidade do Porto. Contudo, passados cerca de 60 anos, a linha do Tâmega começa a ser desmantelada e Gatão perde a sua ligação, por via-férrea, às principais cidades do país.

Para além do vinho verde, existe ainda em Gatão, um pequeno núcleo empresarial de onde se destaca o setor da metalurgia. Esta localidade, com uma forte tradição rural, começa a apresentar atualmente algumas características suburbanas, resultantes da sua proximidade com a cidade de Amarante.

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Igreja de S. João de Gatão

Embora conste que a igreja de S. João de Gatão tenha sido fundada por D. Gatto, descendente de um rei visigodo, Flávio Egica, no séc. IX, a parte mais antiga que se conhece do templo corresponde à capela-mor e remete para o séc. XIII.

Por sua vez, o corpo da igreja resulta de uma profunda remodelação ocorrida nos sécs. XV e XVI.

A igreja, de planta retangular, tem uma cabeceira igualmente retangular, separada da nave por um arco cruzeiro ogivado, suportado por duas colunas românicas, decoradas com elementos vegetalistas. É ainda detentora de uma galilé quadrangular

A capela-mor, de modestas proporções, é um interessante exemplar da arquitetura românica regional, semelhante outras igrejas da região de Guimarães.

As coberturas diferenciadas são articuladas em telhados de duas águas.

Na fachada principal, encimada por um frontão pinaculado rasga-se, para além de um arco da galilé, um óculo simples. Na fachada Sul, ainda subsistem vestígios de um antigo alpendre. Têm particular interesse, na cabeceira da igreja, as arcadas cegas de gosto lombardo que antecedem a cornija onde assenta o telhado.

No interior, merecem referência, para além da cercadura enxaquetada do arco triunfal, os frescos de inspiração bizantina. Na capela-mor, do lado do Evangelho, pode ver-se uma representação de Cristo a caminho do Calvário e, do lado da epístola, uma de Santo António. No topo do arco triunfal, encontra-se uma de Cristo crucificado e, nos alçados laterais deste arco, do lado do Evangelho, uma de Nossa Senhora com o menino ao colo, ladeados por dois anjos e, do lado da Epístola, S. Sebastião, Santa Luzia e Santa Catarina de Alexandria. Todo este conjunto pictórico datará dos sécs. XV/ XVI).

A igreja foi submetida, na década de 50 do séc. XX, a uma profunda intervenção de restauro que reconstituiu a fachada principal e o alçado lateral Sul.

Capela de Nossa Senhora do Vau

De provável fundação medieval, a Capela de Nossa Senhora do Vau, localizada junto ao rio Tâmega, apresenta atualmente uma configuração que a faz remeter para a época Moderna. O templo de modestas proporções apresenta uma planta sub-quadrangular com capela-mor, sacristia e galilé.

No seu interior, pode ver-se uma interessante imagem de Nossa Senhora datada do séc. XIX.

Esta capela tem vindo a ser sucessivamente restaurada, ao longo dos tempos, e de acordo com uma lenda, foi nela que residiu durante algum tempo S. Gonçalo de Amarante.

Capela de Nossa Senhora dos Milagres

De planta quadrangular e de pequena dimensão com uma galilé, a capela de Nossa Senhora dos Milagres, localizada no lugar da Capelinha, foi construída em 1798, como comprova uma cartela com inscrição existente sobre o lintel da porta. O pequeno templo assenta sobre uma plataforma artificial, construída para o efeito, cujo acesso se faz por um lanço de escadas. Neste recinto, para além da referida capela, existe ainda um cruzeiro.

A capela de Nossa Senhora dos Milagres é propriedade da casa de Pascoaes.

Casa de Pascoaes

A Casa de Pascoaes, implantada na quinta do mesmo nome, terá sido edificada na segunda metade do séc. XVII, muito provavelmente a mando de João Mendes de Vasconcelos e Queirós.

O solar com uma planta em “U” delimita um terreiro, fechado por um elegante portal barroco. O corpo central da casa destina-se ao espaço residencial, no braço voltado a Este encontram-se os armazéns e as adegas e, no braço Oeste, pode ver-se a capela da casa dedicada a Nossa Senhora do Pilar, construída em 1672, a mando de João Moreira de Carvalho.

Neste conjunto edificado coexistem diferentes estilos arquitetónicos: o maneirista, o barroco nacional, o rococó, o neoclássico e a arquitetura revivalista das primeiras décadas do séc. XX.

Merecem destaque os azulejos seiscentistas da ala central da escadaria da fachada principal e o elegante portal rococó que dá acesso ao pátio da casa.

Atualmente a casa ainda permanece na posse da família Teixeira de Vasconcelos e foi nela que residiu o ilustre poeta amarantino Joaquim Teixeira de Vasconcelos, mais conhecido por Teixeira de Pascoaes.

Casa de Tardinhade

Implantada numa encosta que se prolonga até ao rio Tâmega, a Quinta de Tardinhade é detentora de um interessante solar construído entre os sécs. XVI e XVII, como evidenciam as arcadas que suportam a varanda coberta voltada a Sul e a porta de acesso à adega. Nos finais do séc. XVII foi adossado a este corpo principal uma nova ala que se desenvolve perpendicularmente à primeira. É a partir deste edifício que se tem acesso ao andar nobre da casa e é aqui que se encontra a fachada principal. Nos sécs. XIX e XX ocorreram profundas remodelações que adaptaram a casa às novas exigências de conforto. Foi também no séc. XIX que se procedeu ao restauro da torre ou à sua edificação.

A Quinta de Tardinhade pertenceu à família Couto de Magalhães e, mais tarde, à de Magalhães Meneses. Em 1941, a propriedade foi vendida à família Sousa Machado, tendo sido novamente vendida mais recentemente.

Nesta interessante quinta e solar conviveram várias personalidades amarantinas relacionadas com as artes e as letras, tais como António Carneiro, António Cândido, Amadeo de Souza-Cardoso, Teixeira de Pascoaes e Agustina Bessa-Luís.

Para evocar esta memória foi criada na quinta uma “Casa do Artista” que tem por objetivo acolher todos os artistas que pretendam aqui permanecer algumas temporadas em trabalho.

Estação dos Caminhos-de-Ferro

Inaugurada no dia 23 de Outubro de 1921, a antiga estação dos caminhos-de-ferro de Gatão é um interessante edifício da arquitetura revivalista do séc. XX, com alguns elementos característicos da Arte Nova, tais como, por exemplo, o painel de azulejos com ramalhetes e a cornija tripartida da fachada principal.

Os edifícios, depois da desativação de uma parte da linha do Tâmega (de Amarante até Arco de Baúlhe) ficaram abandonados e foram recentemente recuperados, mas ainda sem qualquer tipo de afetação.

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São João Baptista

Filho de Isabel e Zacarias, sacerdote do templo de Jerusalém, João terá nascido a 24 de Junho do ano 1 d. C, e era primo, por via materna, de Jesus Cristo. O seu nascimento acontece em circunstâncias espantosas, pois os pais, à data do seu nascimento, eram de idade avançada, como consta no Evangelho de S. Lucas (Lc. I, 5 – 23).

Por volta do ano 27 d. C., S. João abandona a casa paterna e dá início a uma vida errante de pregador, por vezes, também de eremita. Nas suas pregações anuncia a chegada do Messias e clamava pelo arrependimento e pela conversão do povo Judeu «Arrependei-vos porque é chegado o Reino dos Céus». A todos os que o escutavam e confessavam os seus pecados, João batizava-os no rio Jordão, como sinal de renovação ou de renascimento para uma nova vida, e muitos foram aqueles que se tornaram seus discípulos, ou que se arrependeram dos seus atos. O próprio Jesus vai ter com João, ao rio Jordão, para ser batizado e dá início, a partir desse momento, à sua vida pública. A partir de então, S. João começa a apontar Cristo como sendo «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do Mundo» (Jo I, 29 – 36), e alguns dos seus discípulos acabam por se tornar apóstolos de Jesus.

Pouco tempo depois da revelação pública de Jesus, S. João é preso, por ter repreendido Herodes Antipas, Tetrarca da Galileia e da Pereia, devido ao seu envolvido amoroso com Herodias, esposa do seu meio-irmão. Na prisão, vai acompanhando os atos do primo por intermédio de mensageiros que interrogam Jesus a seu pedido.

Durante um momento de leviandade, Herodes promete oferecer à filha de Herodias, Salomé, tudo o que ela quisesse. Tendo esta, desejado, por influência da mãe, a cabeça de João, e assim aconteceu (Mt. XIV, 1 – 12). Este ato fez com que S. João se tornasse no primeiro protomártir do Cristianismo, que celebra o seu suplício a 29 de Agosto.

De acordo com a tradição das Igrejas Católica e Ortodoxa, o corpo de S. João recebeu sepultura em Sebasto, atual região de Naplusa (antiga Samaria). O seu túmulo tornou-se, desde muito cedo, um lugar de peregrinação.

Ao contrário de outros santos, a festa litúrgica em honra a S. João Baptista é celebrada no dia do seu nascimento.

S. João é representado vestido com peles de camelo, tendo numa mão um estandarte ou uma cruz, e na outra um cordeiro que, por vezes, também surge aos pés. Em alguns casos, é representado com um braço e o dedo indicador levantado para o Céu.

João Pereira Teixeira de Vasconcelos

Presidente da Câmara, parlamentar e conselheiro, João Teixeira de Vasconcelos nasceu na antiga Rua da Cadeia (atual Teixeira de Vasconcelos, rebatizada em sua homenagem), no dia 10 de Fevereiro de 1847. Exerceu o cargo de presidente da Câmara de Amarante, foi deputado por Amarante nas cortes gerais do reino, onde se destacou pelo brilhantismo com que tratava os assuntos económicos. Viria mais tarde a tornar-se Par do Reino, Governador Civil de Viseu, membro do Conselho Civil de sua Majestade e Governador Civil do Porto.

Pelo seu trabalho e ação que mereceu o respeito dos seus adversários políticos, foi agraciado com o título de Conde de Pascoaes e com a oferta de cargos de destaque na Companhia do Tabaco ou na Administração da Casa Real que foram recusados por ele, por entender que não se coadunavam com a sua maneira de ser, de estar e de pensar.

Lavrador como se intitulava, João Teixeira de Vasconcelos foi um dos primeiros vitivinicultores a introduzir a poda das videiras na região.

Viria a falecer na Casa de Pascoaes a 3 de Janeiro de 1922.